No segundo dia de aula eles fizeram o teste para o clube de basquete, assim como outros alunos começando suas inscrições em várias atividades extracurriculares que a escola oferecia além da grade obrigatória. Graças a uma ajudinha do irmão do Lucas eles já saíram do teste sabendo que faziam parte do time e apesar de começarem a frequentar festas do ensino médio não era como se muita coisa fosse mudar, já que Ethan preferia gastar sua energia implicando com Lily nos corredores do colégio.
Depois do acontecido no primeiro dia de aula ele ficou com um sentimento estranho por ela, era interesse, mas como um bom adolescente imaturo ele interpretou aquilo como raiva, o que também não era muito diferente.
Já para Lily as coisas eram um pouco diferentes, mesmo podendo ser estigmatizada por ser como era também tinha uma sensação boa de estar em um lugar novo e com novas possibilidades, mas logo precisou procurar muitas distrações por conta do quase bullying de Ethan, ao mesmo tempo em que ela tentava se convencer de que aquilo não a incomodava ela ficava frustrada sem entender porque justo o garoto mais bonito do colégio tinha que tratá-la dessa forma, talvez coisas de garotos de cidade pequena, pensava, por mais que só ele a fizesse passar por isso.
– Por que você tem tanta confiança pra me perturbar, mas não tem coragem de pegar ninguém? Por acaso você quer ficar comigo? – Ela o pergunta depois de uma de suas provocações.
– Você se acha muito, né?
– Eu não acho... Eu sou e eu não consigo encontrar um motivo melhor pro que você faz, tá tão desesperado assim pela minha atenção?
– Suas reações são ótimas, sabia?
– Sei... Já sei que você vai ignorar o que eu falei... – Ela comenta e se aproxima dele – Você não disfarça muito bem que na verdade suas intenções são ver outras reações minhas... – Ela termina de falar de forma que somente ele escute – Se é que você me entende... – Ela termina o comentário de forma debochada e dando de ombros.
– Garota! – Ele reclama e ela tenta não rir.
– Ah! Só você pode zoar comigo? – Ela o empurra de leve, até porque a diferença de força entre os dois era discrepante. Ele a encara em silêncio por alguns instantes até que ela se irrita com a situação.
– Não... Acho que só quero te ver irritada mesmo... – Ele comenta e dá de ombros antes de seguir pelos corredores com Tate e Lucas.
– Dá pra entender por que isso acontece comigo? – Lily comenta desanimada com uma colega de classe com quem se identificou desde o primeiro dia de aula e a acompanhava pelos corredores da escola, que se chamava Amanda.
– Minha mãe vive falando que garotos não entendem os próprios sentimentos e que não nos afetamos pelo o que não nos importa...
– O que você quer dizer com isso?
– Talvez você se importe, mesmo que só um pouquinho com ele.
– Por que eu me importaria com um garoto que me trata dessa forma? Se ele me tratasse bem seria outra história...
– Então você quer que ele te trate bem?
– Eu não disse isso! – Lily se sente perdida em suas palavras – Só disse que faria mais sentido se eu começasse a gostar de alguém que me trate bem, você não acha?
– Os nossos sentimentos não precisam fazer sentido, mas eu entendi o que você quer dizer... Já pensou em falar com ele sobre isso?
– Não! Não vou falar com ele depois do que aconteceu no primeiro dia de aula... – Ela responde e cruza os braços.
– Você ainda está pensando nisso? Você tem que aceitar que garotos falam merda uns pros outros e as vezes é só pra pararem de falar sobre algum assunto...
– Como você pode saber isso?
– Não foi você que disse que o que mais te incomodou foi ele te olhar com tanto interesse e depois falar de você daquela forma? Você mesma percebeu que ele estava interessado naquele dia...
– Quem não te garante que ele fez isso de propósito?
– Garotos adolescentes não são tão complexos...
– Por que você sabe tanta coisa? – Lily pergunta curiosa.
– Meus pais são psicólogos, esqueceu?
– Ah, é verdade...
Enquanto isso os três melhores amigos seguiam em direção à saída e Tate e Lucas apenas esperavam que a interação entre Ethan e Lily terminasse para que pudessem provocá-lo sobre o que tinha acabado de acontecer.
– O boletim de notícias informa: a tensão sexual entre Ethan e Lily é tão grande que foi vista ultrapassando os limites da cidade!
– Ai, ai... Por que você não foca essa energia toda em tentar ficar com ela? – Tate pergunta um pouco entediado.
– Quem disse que eu quero ficar com ela?
– Precisa falar? – Os dois perguntam em coro.
– Eu já disse que isso não tem nada a ver!
– Tá bom... A gente finge que acredita em você...
Durante o restante daquele ano a rotina de Ethan não mudou muito: ele frequentava festas, comparecia aos treinos e implicava com Lily religiosamente. Por outro lado, Lily estava fazendo coisas completamente novas, como participar do clube de teatro e do clube de jardinagem. Antes de se mudar para Pearl Bay ela era apenas a aluna autista em seu antigo colégio, seus colegas de classe a isolavam e apenas funcionários conversavam com ela nos intervalos.
Mas nessa cidade parecia que tudo era diferente. No começo quando seu pai falava animado sobre sua cidade natal ela não conseguia visualizar o que ele poderia gostar em uma cidade com menos de 30.000 habitantes. A princípio não estava nos planos da família essa mudança porque a cidade grande cabia em seus planos e tudo parecia estar bem, até o apartamento em que moravam ser invadido.
Tudo aconteceu muito rápido e sua mãe estava sozinha em casa, o horário quase coincidiu com sua saída da escola, mas o assaltante já havia ido embora quando ela e sua irmã mais nova chegaram e se depararam com a mãe desacordada no chão da sala. A princípio nada havia sido levado e no hospital a notícia que ninguém gostaria de receber: ela havia sido violentada.
De repente os quatro integrantes daquela família se viram fazendo uma mudança para uma nova cidade e em direção a uma vida que até então só tinha sido de seu pai, mas que depois do que havia acontecido era como uma esperança de uma vida com isso para trás.
Seus pais haviam se conhecido em Nova Iorque pouco depois que ele se mudou para fazer faculdade, então as memórias de Pearl Bay eram uma coisa exclusiva de seu pai, já que seus avós paternos as visitavam regularmente desde que eram pequenas. Ela pensava que as coisas continuariam como eram, mas só de chegar no lugar pôde perceber que tudo seria diferente, mas talvez diferente demais do que ela poderia encaixar em suas próprias expectativas.
– Ei, você tá irritada? – Amanda pergunta ao perceber que Lily não está interagindo muito.
– Não consegui entrar no coral porque não sei ler partitura...
– Acontece... Por que você não tenta alguma atividade que você já fazia lá em Nova Iorque?
– Mas eu fazia parte do coral... – Ela reclama manhosamente.
– Como assim você não lia partitura?
– É tão estranho assim?
– Levando em consideração que uma das melhores faculdades de música do país ficam lá, eu acho...
– Tinham as partituras, mas eu não entendia porque não fazia aula de música... Eu aprendia as músicas ouvindo as outras meninas...
– Isso é muito bom... Se eu soubesse ler essas coisas eu te ensinava, mas não faço ideia do que é uma coisa ou outra...
Já para o clube de teatro ela não teve muitos empecilhos, apesar de estar envergonhada ela conseguiu cantar e atuar um pouco, era difícil pensar que todas aquelas pessoas estavam a julgando, mas ao mesmo tempo ela foi muito bem recebida entre aquelas pessoas e se surpreendeu principalmente pela diversidade entre as pessoas. E também porque ela não demorou para perceber que a maior parte das meninas eram bi ou lésbicas, mas ela não se importava com isso.
Para Lily relacionamentos físicos eram irrelevantes, até então ela não havia se interessado genuinamente por ninguém e a única vez em que ela tinha beijado alguém foi por um acordo para finalmente “deixar isso para trás”. A experiência não tinha sido das melhores e de certa forma era mais confortável para ela lidar com seus relacionamentos como se ela não se interessasse pelas pessoas dessa forma, mas ela sabia que no fundo ela sentia pelo menos um pouco de interesse.
Inclusive ela não levou muito tempo para descobrir que a maior parte dessas garotas já tinham ficado entre si, coisa que não entrava na cabeça dela, já que ela costumava a imaginar o amor como uma coisa mais romântica de você estar e ficar com apenas uma pessoa, mas não se incomodava com aquilo já que tinha certeza de que não se envolveria nessa situação, pelo menos era o que ela pensava.
As garotas eram super divertidas e a adoravam, mais do que ela imaginava, é claro. Lily era muito inteligente, mas também conseguia ser muito boba em alguns aspectos, principalmente quando se tratava de relacionamentos amorosos. Ao mesmo tempo em que se irritavam com a inocência dela elas adoravam o desafio e duas delas chegaram a apostar quem conseguiria conquistá-la, mas Lily levaria muito tempo para descobrir isso.
– Ah, aquelas duas são a Megan e a Carly, elas estão sempre juntas porque se gostam muito... – Amanda começa a explicar sobre os dramas dos integrantes do clube de Teatro já que ela também faz parte.
– Parece que elas namoraram sério por uns dois meses, mas depois terminaram, pessoal fala que elas ainda ficam até hoje...
– Por que elas não continuam namorando?
– Não sei... Por isso não é uma boa ficar com nenhuma das duas, elas sempre vão preferir uma à outra... – Ela avisa.
– Eu não vou ficar com ninguém, Amanda... – Ela dá de ombros.
– Se é isso o que você diz... Ali você vê o Joe, ele é o único garoto gay que se assumiu pro colégio inteiro... Isso aconteceu no ano passado quando ele ainda era novato, eu sei que você não estava aqui, mas...
– Ele se apresenta para as pessoas mencionando isso...
– Exatamente... Ali sentadas naquela mesa estão Mary, Oliver e Mia... Elas competem entre si pra descobrir quem consegue ficar com mais garotas héteros, então toma cuidado porque elas podem tentar alguma coisa com você...
– Eu já te disse que não tenho interesse em ficar com ninguém...
– Eu sei... Só estou avisando... Fora isso tem o Michael e o Tony que não vieram hoje e o Harry que foi no banheiro...
– Eu sei que te pedi para me dizer quem era quem, mas eu não consegui decorar o nome de ninguém... – Lily assume e as duas riem.
– Fica tranquila... Com o tempo você consegue associar...
– Amanda! Tá isolando a nova integrante do clube? Ela precisa interagir com a gente também! – Oliver se aproxima delas e pede.
– Eu não estou fazendo isso... Ela é minha amiga, então nós viemos juntas...
– Foi você que veio de Nova Iorque, né? – Oliver pergunta para Lily ignorando o que Amanda fala.
– Ah sim... Eu nasci lá, mas meu pai nasceu aqui...
– Que legal! Da Amanda a gente já sabe tudo... Talvez até demais... Já que vocês são amigas, deixa a Lily conhecer a gente enquanto estiver aqui no clube, tá bom, Amanda? – Oliver pede enquanto começa a arrastar Lily na direção em que as outras integrantes do clube estão e perdida com a situação ela apenas olha para Amanda como se pedisse ajuda para sair daquela situação.
– Tá bom, Oliver... Elas são legais... Lembra o que eu te falei...
– Ah! Já estava falando mal da gente para a aluna nova?
– Eu só falei para ela ser ela mesma, deixa de ser paranoica.
Nenhum comentário:
Postar um comentário